Famílias denunciam associação por poluir água
01/02/2012
O forte cheiro de agrotóxico exalado da central de recebimento de embalagens vazias de Araranguá tem provocado reclamação e protesto dos moradores da comunidade de Sanga da Areia, em Araranguá. Cerca de 20 famílias que residem próximo ao pavilhão de aproximadamente 600 metros quadrados se queixam do problema e acusam a Arasul- Associação dos Revendedores de Agroquímicos do Sul, de depositar diretamente no solo a água utilizada na lavagem das embalagens, o que é proibido por lei.
De acordo com o agricultor Bento Antônio Emídio, 52 anos, o problema se arrasta há mais de dois anos. Ele mesmo diz ter flagrado os funcionários da empresa despejando tonéis contendo o líquido obtido com a lavagem das embalagens de agrotóxicos em uma das rampas do pavilhão, o que atingiria diretamente o solo. As embalagens, algumas de produtos químicos perigosos, já deveriam vir limpas depois da tríplice lavagem feita pelos agricultores ainda na lavoura.
Segundo os moradores, outro fato tem tirado o sono da população local. A água que sai da torneira direta para o consumo pode ser a causadora de sintomas como enxaquecas, dores de cabeça, enjoo e garganta seca. O ar que de acordo com os moradores também está contaminado e apresenta forte odor de veneno é praticamente intolerável logo no início da manhã, quando são abertas as portas do pavilhão que abriga uma grande quantidade de embalagens recolhidas de aproximadamente 140 empresas que fazem parte da Arasul. De acordo com a própria associação, são aproximadamente 75 cidades que entregam suas embalagens na unidade de recolhimento. Por ano, cerca de 90 toneladas de embalagens prensadas saem do local e seguem com destino à recicladoras ou a incineradoras, caso estejam contaminadas.
A preocupação e o medo dos moradores ficou ainda maior depois que manchas e uma espécie de impinge começou a brotar pelo corpo de algumas crianças da comunidade. "Não sabemos o que provocou isso no corpo da minha filha, mas nossa suspeita é que seja da água. Nunca foi feito nenhum tipo de análise na água e a gente continua consumindo. Uma comunidade inteira pode estar sendo prejudicada e ameaçada pela irresponsabilidade de meia dúzia," afirma o agricultor Bento Emídio.
Betânia Santos, que reside a pouco mais de 150 metros da Arasul, notou que manchas foram brotando no corpo da filha de apenas dois anos de idade. "Foi depois que ela tomou banho de piscina. A água é da ponteira aqui de casa. Vou levar no médico para ver o que causou essa espécie de alergia, mas já fico preocupada, pois com saúde não se brinca," conta. O aposentado Luiz José da Silva, 55 anos, também afirma estar preocupado. Ele é mais um que diz ter visto quando os funcionários da empresa lavavam embalagens de agrotóxico em um reservatório nos fundos do pavilhão. No local, onde existe uma espécie de piscina feita em concreto, aproximadamente dois mil litros de água contaminada estariam sendo depositadas no solo. "É preocupante, mas pouca gente tem coragem para denunciar. Afinal de contas são pessoas de poder e a comunidade se sente ameaçada, mas alguém precisa tomar coragem e fazer alguma coisa, pois não podemos mais deixar que isso aconteça," relata.
Outra questão chama a atenção para o problema apontado pelos moradores. A pouco menos de 500 metros do centro de distribuição de embalagens, uma escola onde estudam mais de 300 alunos também utiliza água de ponteira tanto para a merenda quanto para consumo dos estudantes. A reportagem do Correio do Sul esteve no colégio e conversou com a funcionária que não soube dar muitas informações a respeito do assunto, no entanto, afirmou que recentemente foi realizada análise da água e após constatar problemas foi feita uma nova ponteira ainda mais profunda, que será utilizada a partir deste ano.
De acordo com o técnico em agropecuária e responsável pelo local, Dion de Oliveira, a unidade possui permissão e licença da Fatma e da Cidasc para funcionar, estando em dia com as exigências de ambas entidades. "São infundadas as acusações. Aqui dentro do pavilhão realizamos apenas o recebimento destas embalagens que depois de prensadas são enviadas ou para a reciclagem ou então para incineração caso estejam contaminadas," afirma.
Oliveira explicou detalhadamente o processo completo que a embalagem faz desde que chega ao local até o destino final. Ele também confessou que a Arasul foi rejeitada pela comunidade logo no início de sua instalação em 2004. No entanto, se defende dizendo que a empresa possui grande responsabilidade com o meio ambiente e já recebeu inúmeros prêmios por isso. Explica que parte da infraestrutura devera ser melhorada e inclusive a ventilação, o que deverá amenizar o problema do cheiro que é alvo de reclamação das famílias.
Dion garante ainda que o odor não prejudica e nem faz mal a saúde, pois está dentro dos padrões permitidos pela legislação. Também afirma que já tinha conhecimento de algumas reclamações, mas não sabia o tamanho do descontentamento. "Estamos nos colocando a disposição para desmistificar isso. Não temos nada de errado e nossos processos estão dentro do padrão. Ao invés de atacarmos, nós defendemos o meio ambiente e por isso somos reconhecidos através de prêmios. Nossos procedimentos também estão dentro da normalidade e não há nada de irregular, caso contrário nem licença dos órgãos ambientais teríamos para operar," desabafa.
A Fatma também foi contatada pela reportagem do Correio do Sul. De acordo com o gerente regional Alexandre Carniel, uma licença foi concedida em novembro do ano passado, porém, se as denúncias procederem a Arasul corre o risco de perdê-la. Uma nova vistoria deve acontecer na empresa nos próximos dias, garantiu Alexandre, só que desta vez para averiguar a situação exposta pelos moradores.
Fonte: Correio do Sul
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