Sete órfãos e a mesma tristeza da perda
25/01/2012
Em seus últimos momentos de vida, Leonéia Silveira, 31 anos, pensava nos filhos. Grávida de quatro meses e lutando para se manter viva, disse à mãe que sentia que estava muito mal e que se preocupava com as sete crianças que estavam em casa, em Timbé do Sul. Morreu pouco depois, em um hospital de Florianópolis, pra onde havia sido levada as pressas de helicóptero. Era dia 16 de janeiro.
Sueli Borges ficou com os netos com idade entre 14 e um ano. Ao lado do filho Lenoir, conta que Néia, como chamava a filha, tinha problema de tireóide e a saúde bastante debilitada. Ela fazia tratamento e nos últimos tempos dizia estar se sentindo melhor. Isso mudou quando os filhos pequenos tiveram catapora, eles ainda apresentam as marcas pelo corpo. O menor, que dormia com a mãe, também teve e deve tê-la contagiado. Mas não foi somente isso. No Hospital Regional de Araranguá, para onde Leonéia foi encaminhada do hospital de Timbé do Sul, os médicos listaram doenças como tosse seca, dispinéia (respiração difícil) e desidratação. Eles não esconderam a gravidade da situação a Sueli, dizendo que seria difícil salvar o bebê, mas tentariam manter a vida da mulher. "Ela me disse que sabia que estava muito mal. Se preocupava com as crianças, pois sempre foi uma mãe zelosa. Era tudo por eles. A primeira filha ela teve solteira com 16 anos, e muitos queriam que desse para adoção, mas não aceitou. Ela estava esperando o oitavo filho", descreve Sueli, que também teve oito filhos - quatro homens e quatro mulheres - sendo Néia a mais velha.
Sueli cuidou da filha desde que ela foi internada em Timbé do Sul. Neste período Néia conseguia apenas tomar água e nada mais. Preocupada, Sueli comprou um achocolatado e deu a ela, que conseguiu ingerir. "Antes disso, ela só havia precisado de algum remédio caseiro, para gripe ou coisa simples. Sua vida era pensar nos filhos. Por muitos anos trabalhamos catando materiais recicláveis e ela não tinha vergonha de dizer que era pobre, e o que pudesse pegar, como roupa ou calçado para as crianças, não se fazia de rogada", relata Sueli.
A avó deve procurar ajuda na assistência social do município para discutir o futuro dos netos. Ela os acolheu em casa e tenta dar a mesma atenção que a filha dava. Inclusive vai manter a promessa de não cortar o cabelo do menino mais novo até que complete sete anos. Sua intenção é cuidar de todos para que não fiquem em casas separadas. O pai de um dos meninos esteve na segunda-feira na casa de Sueli, na estrada geral Areias Brancas, e disse que não pretende tirá-lo da avó, pois acha que os irmãos devem ser mantidos juntos. O pai dos três mais novos, que vivia com Néia, se mudou para uma nova residência, sonho que ela não pode realizar, e também depende da ajuda da sogra para criar os filhos.
Lenoir, que já perdeu o pai e um sobrinho recém nascido, lamenta a sorte da irmã. Moradora de Areias Brancas, área que será alagada pela barragem do Rio do Salto, precisava se mudar. Com a nova casa na localidade de Amola Faca pronta, ela estava animada com a mudança que não teve tempo de fazer.
Sueli tem recebido ajuda dos vizinhos, mas está preocupada com o início das aulas em fevereiro, pois as crianças não têm calçados. Consegui-los é a sua prioridade e na expectativa de ganhá-los vai listando: Angélica, de 14 anos, calça número 37; Daniel, de 12, calça 35/36; João Paulo, 11 anos, e Amiltom, de 9, usam 35; Willian, 6 anos, calça 34; Israel, 4 anos, 33/34, e Ismael de um ano e seis meses, usa calçado 23/24. Mas qualquer doação é bem vinda, seja alimentação, roupas e também materiais escolares, já que a família é bastante humilde.
Menos de dez dias depois da morte da mãe, a preocupação das crianças é diferente daquelas da avó. Eles querem entender a reviravolta que tiveram na vida. Alguns dizem que a mãe está no céu e outros ainda perguntam quando ela vai voltar. O bebê, depois de dias seguidos de choro pela falta da mulher que o carregava nos braços e com quem dormia, começa a se adaptar a ausência dela. A família é bastante agradecida pelo esforço feito por médicos e enfermeiras do Hospital Regional, que naquela triste segunda-feira não pouparam esforços na tentativa de salvar a vida de Leonéia. Diante da gravidade do quadro dela, o Samu foi acionado e por fim um helicóptero do Corpo de Bombeiros veio a Araranguá buscar a gestante, que em 50 minutos estava no hospital Celso Ramos, na capital. Não foi tudo em vão pela certeza de que foi feito o possível para salvar a vida de mãe e filho.
Fonte: Correio do Sul
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