Especial     5 de março de 2018 14:00
Autor: Aline Bauer
Região

Comida diminui distância entre Sul e Norte


Quando se está longe de casa, muita gente sente falta dos parentes, amigos, do cheiro do lugar… Mas se tem uma coisa que traz nostalgia a quem deixou a terra natal para trás é a comida. Nada substitui aquele sabor que só existe naquele lugar. Um grupo de acreanos, que viveu por oito meses na região do extremo Sul catarinense, conseguiu dar um jeito de matar as saudades da comida do seu estado. José Bernardino da Cunha é um deles, trabalha em uma empresa há mais de 20 anos, e viaja o país inteiro montando viadutos e pontes. Foi isso que ele veio fazer nas obras da Serra da Rocinha, em Timbé do Sul, junto com cerca de 20 colegas. Ele garante, a comida é o que traz boas lembranças do Acre, e a esposa, Iolanda, que viaja com ele, é a responsável por fazer os pratos típicos da região Norte do país. “Não sinto muita falta, por que ela faz a comida para gente, e faz os pratos de lá”, diz ele, sorridente. Iolanda costuma fazer muito o Vatapá, um prato que é tão tradicional lá quanto o nosso arroz e feijão. (Mais abaixo, confira uma receita dessa iguaria).

Sempre viajando, José gosta de provar outros sabores, e nos próximos dias deve se mudar de novo, desta vez, para a Bahia. Segundo ele, está ansioso para provar os sabores baianos. “A gente procura sempre a culinária, e lá a comida é muito parecida com a nossa”, comenta. No entanto, as experiências gastronômicas do Sul catarinense também marcaram o paladar do trabalhador, e ele tem na ponta da língua a resposta para a pergunta que não quer calar: afinal, que prato da nossa região agradou ele, apreciador de novos sabores? “Polenta. Achei bem boa, e vamos levar pro Acre”, declara.

Mas nem só de comida é feita a cultura de um povo, e há mais coisas do Acre que José sente saudades. “Eu sou acostumado, trabalho longe há muito tempo. Sinto mais falta dos filhos que ficam lá”, conta ele, acrescentando o ponto negativo da terra onde nasceu. “Para viver lá, não é bom. Não se tem sossego, e aqui é só paz”.

Santa Catarina está entre os lugares onde José mais gostou de trabalhar, e ele acrescenta Goiás à lista de estados bons de ser viver. “Trabalhar na Rocinha é gostoso”, diz. Depois de mais 20 anos viajando pelo país, ele consegue traçar um panorama de como é o Brasil do ponto de vista de quem trabalha para o crescimento da nação, observando a realidade de povos diferentes. “É um país bom demais, graças a Deus. Apesar de tudo, é ótimo”, completa.

 

Iolanda, a cozinheira

Ela não é chefe de cozinha, mas os conterrâneos do Acre garantem, ninguém faz um Vatapá como Iolanda do Nascimento Souza. Ela diz não ter muitos segredos, e gosta de estar na cozinha para passar o tempo. “Eu gosto muito de cozinhar, me distrai, já que eu fico muito tempo sozinha”, comenta. Antes de passar à reportagem a receita de sua especialidade na cozinha, Iolanda comentou um pouco sobre a mudança que se aproxima, quando ela e o marido devem ir para o Nordeste, depois de oito meses por aqui. “O meu problema é que eu chego com uma mala e vou embora com cinco. Eu carrego muita coisa. São malas, bolsas, caixas, e nós pagamos muito excesso de bagagem. Além disso, a gente sempre faz amigos muito rápido”, conta. Sobre o lugar, ela é só elogios para a região de Timbé do Sul, e admite que pensou até em mudança definitiva para a cidade. “Eu pedi para ele para vender nossa casa no Acre e comprarmos uma casa aqui. Lá está muito violento, estão matando de 10 a 15 pessoas todo dia, as facções tomaram a capital, não é lugar para criar filhos. Vai ser muito difícil ir embora daqui, por que até chegar em algum lugar e se adaptar, é complicado”, declara.

Um dos pontos em que a diferença entre Norte e Sul fica mais evidente é no clima. Enquanto a temperatura aqui nunca passa dos 35 graus, isso já num verão escaldante, no Acre a temperatura mais fria registrada nos últimos anos foi de 7,5 graus. Para a equipe que veio do Norte, o clima foi literalmente, congelante. “Quando eu cheguei não estava tão frio. Cheguei em setembro e meu marido estava dormindo com três cobertores bem grossos. Lá é muito quente, quase 50 graus todo dia. Não dá para ficar dentro de casa sem ar condicionado. Mas, me adaptei”, diz Iolanda, triunfante.

Além da residência, os cinco filhos do casal ficaram no Acre, e Iolanda admite, é difícil superar a saudade. Porém, a vida é feita de escolhas, e ela escolheu seguir o esposo. “Não é fácil, mas quando eles ficaram adultos eu disse ‘olha, já fiz tudo por vocês, e agora vocês podem viver sozinhos. Eu vou seguir meu marido’, e parti”, conta.

Não importa como, mas é importante manter as ligações com a terra natal, seja ela através de filhos e boas lembranças, ou com uma comidinha especial, com sabor de saudade.

 

Vatapá do Acre

Iolanda explicou à reportagem como é feito um dos pratos mais tradicionais da cultura do Norte brasileiro. Ela já prepara a receita há tanto tempo e geralmente para muitos colegas do marido, que nem lembra mais as quantidades exatas para se fazer uma receita pequena. Mesmo assim, ela conta o passo a passo para se fazer um típico Vatapá, com gosto de nostalgia.

– Quanto mais velho o pão, melhor. Se você vai fazer à tarde, de manhã você coloca o pão em uma bacia e acrescenta leite, o suficiente para deixar ele ensopado. E deixa lá o dia inteiro. De vez em quando é bom ir lá e esmiuçar um pouco. Eu faço para toda a turma, então é bastante pão.

– Depois de um tempo, você coloca ele numa panela, e vai mexendo com uma colher de pau e vai acrescentando os ingredientes. Pode ser sardinha ou camarão, depende do gosto da pessoa. Aí acrescenta azeite de dendê, o leite de coco, e sal a gosto, juntando a sardinha ou o camarão amassado. Se você for usar camarão do grande, precisa bater no liquidificador.

– Vai mexendo até ele ficar bem grosso, por que o azeite vai deixar ele amarelinho, com uma consistência maravilhosa. E quem gosta de pimenta, junta com o camarão ou com a sardinha na hora de amassar. Nós usamos bastante pimenta. Aí, coloca tempero verde, salsa, coentro, e junta depois de pronto. Ele fica maravilhoso. É uma delícia.

– Como eu faço muita quantidade, eu uso uma bandeja do camarão grandão ou duas de camarão pequeno. De sardinha vai umas seis latas grandes.

 

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