Situação delicada na sucessão na agricultura familiar
06/02/2012
Entre os desafios do setor agrícola, um dos maiores é o de manter os produtores no campo. Para que isso aconteça é preciso que haja sucessão familiar, ou seja, que os filhos substituam os pais na propriedade. O que está cada vez mais difícil. Esta foi uma das discussões realizadas durante o Campo Demonstrativo Cooperja - CDC, realizado entre quarta-feira e quinta-feira passada, na localidade de Picadão, interior de Jacinto Machado.
Além de conhecer novas tecnologias agrícolas, os participantes assistiram palestra com o professor Ainor Lotério, sobre os desafios dos novos padrões sucessórios no campo. Ele foi enfático: "Um jovem ainda não tem total definição do que é certo. Os pais podem e devem mostrar que o campo é bom. Fazê-lo ter orgulho de plantar". Usando uma dinâmica com 43 correntes (idade que a Cooperja faz este ano), mostrou a força da união e exortou os adultos a não se limitar a somente reclamar da crise na lavoura na presença de crianças e jovens. O palestrante mostrou dados de uma pesquisa revelando que 14% dos filhos mais velhos ficam na agricultura, contra 6% dos mais novos. Apenas um 1% dos que mais estudam na família seguem a profissão dos pais agricultores e outro 1% é formado por aqueles que ficam na terra por ter maior afinidade com os pais.
Manter os jovens no campo depende de atraí-los com novas alternativas e habilidades, como ciências agrárias, planejamento eficiente e conhecimento. Portanto, trabalhar na terra não significa abandonar estudos nem sonhos. "O sucesso é parte do esforço e dedicação de cada um. Pessoas da mesma região tem o mesmo clima, o mesmo tipo de solo, mas alguns têm sucesso e outros não. É preciso ter foco e ensinar o filho a ter um projeto e segui-lo com determinação", disse Ainor.
Bruno Biz Sartor, de 15 anos, mora em Santo Antônio da Patrulha/RS, é filho de agricultor, mas foi aconselhado pela família a estudar e não seguir os passos dos pais. Parece disposto a não obedecer e permanecer na lavoura. Ele participou do CDC. O adolescente tem somente uma irmã e não acredita que ela encare o desafio de ser agricultora. Já Elias Donadel, de Timbé do Sul, estuda no Instituto Federal Catarinense - IF/SC, em busca de conhecimento agrícola. Ele anseia seguir os passos da família, seja como orientador ou produtor. Quer ter conhecimento para alcançar eficiência na hora de investir em diversificação, que tanto pode ser a pecuária ou a piscicultura. Além de gostar da roça, Elias recebe o incentivo dos pais. Ele reconhece que é exceção entre os colegas, dispostos a garantir um emprego com carteira assinada, mesmo que isso signifique ganhar menos.
Keler Duminelli, de Sapiranga, Meleiro, trabalha a 18 anos na rizicultura, seguindo a profissão dos pais. Hoje tem uma menina recém nascida e pretende ter mais filhos. Sabe que quando estiverem adultos, será difícil que sigam seus passos. Apesar das dificuldades, é otimista e vê que existem muitas oportunidades na agricultura. "Eu me orgulharia se um filho encarasse a roça como eu fiz", confessa. O casal Eroni Paganini e Rute Maria Lodetti Paganini, teve três filhos. Nenhum deles ficou com eles para trabalhar nas terras que possuem em Tenente, Jacinto Machado. Um filho está na área da educação no estado do Paraná, outro é mecânico e a filha trabalha no setor empresarial, em Araranguá. Eroni diz que gosta da roça, mas deixou os filhos escolherem livremente seu caminho. Com quase 70 anos, pretende plantar e colher enquanto tiver disposição, porque ama o que faz tanto quanto ama a mulher, que permanece ao seu lado firme como a terra.
O presidente da Cooperja, Vanir Zanatta, acredita que entre os motivos que levam as famílias a ter dificuldade na sucessão no campo está à falta de motivação dos agricultores. "Pretendemos trazer o palestrante para trabalhar esta questão nas comunidades, durante este ano e no próximo". Um dos problemas do abandono do interior pelos jovens é a falta de mão de obra, lembra, que traz consequências negativas para os municípios agrícolas.
Mas somente palavras motivadoras não bastam, reconhece Vanir. É necessário oferecer a família rural condições de trabalho e de acesso a tecnologia e recursos , além de incentivos a produção. "É preciso que a população reconheça e valorize o agricultor. Não é fácil ter orgulho quando não se tem valor", finaliza o presidente da Cooperja.
Fonte: Correio do Sul
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